5 Tendências de Sundance 2022

Como um flash, o mês de janeiro passou e acabamos de assistir a mais uma edição do tradicional Festival de Cinema de Sundance. Em 2022, novamente, devido ao ressurgimento de casos de covid-19, tivemos uma versão online do evento, mas isso não mudou em nada a essência de Sundance. Esse ano, originalmente planejado para ser um evento híbrido, tanto virtual quanto em Park City, Utah, o festival exibiu mais de 80 longas-metragens, além de mais de 80 curtas-metragens de todo o mundo, abrangendo uma ampla gama de gêneros, como de costume. A mudança de última hora pra um evento 100% virtual não alterou praticamente nada no programa e somente um dos mais 160 filmes confirmados cancelou sua exibição. Cobrindo Sundance pela primeira vez, observei algumas tendências interessantes e vim compartilhar com vocês nesse texto. Até porque, como Sundance é um dos maiores festivais de cinema independente do mundo, essas tendências também poderão ser vistas ao longo do ano na indústria.

Filmes de terror dominaram o festival

Outrora considerado cinema marginal, o gênero de terror tem seus detratores desde o mundo é mundo. Embora ainda existam muitos “haters” de filmes de terror por aí, nenhum outro gênero foi tão bem-sucedido em Sundance este ano. O festival é famoso por sua seção chamada “Midnight” que tradicionalmente inclui alguns dos filmes mais aterrorizantes que se pode imaginar, e este ano não foi diferente. Fresh, de Mimi Cave, certamente se destacou ao contar a história de uma jovem envolvida num relacionamento tenebroso, enquanto Hatching, de Hanna Bergholm, contou uma história assustadora sobre a descoberta da adolescência e problemas familiares no coração da Finlândia. Outras adições interessantes incluíram o terror durante as férias dinamarquês Speak No Evil, de Christian Tafdrup, e o filme espanhol sobre bullying PIGGY, de Carlota Pereda. Mas o fato é que os filmes de terror não estavam restritos à seção Midnight e podiam ser encontrados em todo o festival, com pelo menos quatro outros filmes de macabros apresentados na principal categoria de Sundance, a Competição Dramática dos EUA, incluindo o vencedor do Grande Prêmio do Júri, Nanny, uma intrigante história de medo e trauma no contexto da vida de imigrantes. A Competição Dramática Mundial também incluiu um incrível terror filosófico que vale a pena mencionar: You Won’t Be Alone, um filme co-produzido internacionalmente escrito e dirigido pelo cineasta australiano Goran Stolevski.

Os documentários seguem firmes e fortes

Sundance é conhecido por dar aos documentários um lugar ao sol num mundo que geralmente não os vê como uma competição real para os filmes com histórias fictícias. E enquanto eles não competem entre si no festival, os documentários têm, sim, seu espaço garantido, com um grande número de produções de diferentes partes do mundo sendo exibidas em duas categorias. Entre os mais de 20 documentários selecionados pelos programadores do evento, alguns deles estiveram entre os filmes mais comentados da última semana de janeiro. Um dos destaques da competição foi Navalny, dirigido por Daniel Roher, que gira em torno do líder da oposição russa, Alexey Navalny, e eventos relacionados ao seu envenenamento em 2020. O corajoso documentário dinamarquês-brasileiro The Territory, sobre a invasão de reservas indígenas protegidas no Brasil , também foi aclamado por mergulhar no coração da Amazônia e dar voz a indígenas ameaçados por madeireiros e pelo governo de extrema-direita. Ambos os docs acima mencionados receberam Prêmios do Público no festival, enquanto os vencedores do Grande Prêmio do Júri foram The Exiles, de Ben Klein e Violet Columbus, e All That Breathes, de Shaunak Sen. Devemos incluir aqui o fenomenal Fire of Love de Sara Dosa, que usou “found footage” para explorar a vida do destemido casal de cientistas Katia e Maurice Krafft, que morreu em uma explosão vulcânica em 1991 enquanto faziam exatamente o que os uniu.

Fire of Love' Review: The Most Spectacular Volcano Footage Ever Shot -  Variety

Fire of Love – Courtesy of Sundance Institute

Cineastas mulheres são a maioria e as mais aclamadas

Pela primeira vez na história do Festival de Cinema de Sundance, filmes dirigidos por mulheres foram a maioria das obras exibidas no evento, considerando tanto as cinco categorias competitivas quanto os filmes exibidos em outras seções não competitivas. Claro que essa estatística por si só já é uma vitória importante para a representatividade, mas não é a única boa tendência que desponta do festival este ano. Obras dirigidas por mulheres também receberam mais elogios da crítica, do público e do júri de Sundance. Além do grande vencedor já mencionado – Nanny, de Nikyatu Jusu – devemos mencionar o suspense sobre stalking de Chloe Okuno, Watcher; o trama de amadurecimento de Jamie Dack, Palm Trees and Power Lines; e o thriller acadêmico de Mariama Diallo, Master. Além disso, Good Luck to You, Leo Grande de Sophie Hyde foi um dos queridinhos do festival, junto com o filipino Leonor Will Never Die de Martika Ramirez Escobar. O Prêmio do Público na categoria Competição Dramática Mundial também foi ganho por um filme dirigido por uma mulher, o impressionante drama de amizade adolescente finlandês Girl Picture, de Alli Haapasalo: uma das muitas cineastas internacionais que inspiraram o público no Sundance 2022.

Filmes internacionais prometem

E por falar em cineastas internacionais, Sundance tem uma ótima reputação de apresentar artistas incríveis de todo o planeta através se suas categorias mundiais, e este ano não foi exceção. Eu diria até que títulos estrangeiros discretamente tomaram o festival de assalto. O melhor exemplo disso foi certamente o vencedor do Grande Prêmio do Júri da Competição Mundial de Cinema Dramático, o fabuloso drama boliviano Utama (que leva o título Our Home em inglês), dirigido por Alejandro Loayza Grisi. Este filme belíssimo não estava na lista de muitos dos meus colegas de imprensa antes do festival começar, mas eu me certifiquei de ter um ingresso garantido para assistir esse filme vizinho sul-americano em Sundance. Felizmente, eu estava certo em fazê-lo, porque Utama lentamente se tornou uma obra imperdível que dos efeitos das mudanças climáticas nas populações indígenas e, com razão, ganhou popularidade à medida que o festival prosseguia. O drama familiar brasileiro com implicações políticas Marte Um (Mars One em inglês), de Gabriel Martins, também foi adorado pela maioria dos sortudos que o assistiram. Dos Estaciones, do México, dirijido por Juan Pablo González, e Klondike, da Ucrânia, da cineasta Maryna Er Gorbach, foram outras pérolas escondidas do festival que, sem dúvida, voltarão a ser mencionados durante o ano.

Os serviços de streaming são os maiores compradores

Agora, em termos de mercado, Sundance sempre foi considerado uma plataforma para catapultar filmes independentes para o mainstream, às vezes com acordos de arregalar os olhos, como a aquisição de CODA pela AppleTV + por um valor recorde de 25 milhões de dólares em 2021. Este ano, o maior acordo divulgado até afora também foi feito pela AppleTV +: a empresa comprou os direitos de distribuição mundial de Cha Cha Real Smooth, de Cooper Raiff, uma adorável comédia dramática estrelada por Dakota Johnson e pelo próprio Raiff que foi um dos mais aclamados do festival. Mas essa não foi a única aquisição feita por um serviço de streaming em Sundance, longe disso. De todos os negócios fechados até agora, mais da metade deles envolveu algum tipo de serviço de mídia over-the-top (OTT), ou seja, empresas que oferecem conteúdo na internet. Esta é certamente uma boa notícia para produtores e cineastas durante um período em que o cinema ainda é afetado pela pandemia. Isso significa que filmes independentes ainda podem encontrar um lar, ainda que precisemos de serviços de streaming para nos socorrer.


Já que está aqui, veja mais!

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