MOFFIE – 2019

Um filme sul-africano dirigido por Oliver Hermanus, Moffie (que mantem o mesmo título em português), é um drama de guerra que se baseia numa história real. O filme adapta um romance escrito pelo autor também sul-africano André Carl van der Merwe que, no livro, conta a sua autobiografia. Moffie viaja para a África do Sul de 1981, quando o país, mergulhado no regime de apartheid, baseado na segregação racial e no subjugamento de negros, vivia em constante tensão com países vizinhos de inclinação socialista, como Angola. Nesse contexto, o protagonista Nicholas van der Swart (interpretado por um excelente Kai Luke Brümmer), aos 16 anos, é obrigado a fazer parte do serviço militar do país, assim como todos os rapaz brancos da sua idade. Assim, Nicholas, que sempre soube que ele não era como os outros rapazes, se vê num ambiente completamente sufocante, onde expressar qualquer tipo de desejo por outros homens é tão condenável quanto ser comunista ou ter simpatia por pessoas negras e pode lhe trazer as punições mais severas possíveis.

O nome do filme, Moffie, é na verdade um xingamento homofóbico utilizado na África do Sul para se referir a homens gays, e isso já diz muito sobre o que o filme nos traz. Sim, é um filme sobre homofobia, sobre esconder a sua verdadeira essência para sobreviver, então já fica a dica para quem está cansado de filmes LGBTQ+ onde o protagonista sofre. Ainda assim, a história real de Nicholas, baseada nos diários que André Carl van der Merwe escreveu quando precisou prestar o serviço militar obrigatório 30 anos atrás, são uma importante memória de como a realidade queer foi ainda mais dura em determinados lugares do mundo. É uma história de resiliência num universo que não nos dá escolha, e por isso merece ser lembrada. A atuação de Kai Luke Brümmer é forte e marcante, e o desenvolvimento do filme é bem feito como um todo, além de ter um bom trabalho de som e uma ótima trilha sonora. Há outros personagens secundários que poderiam ter sido mais bem aproveitados, mas partindo do princípio que se trata de uma autobiografia, as escolhas criativas são justificáveis.

Outras escolhas criativas que acompanham esse trabalho autobiográfico são as questões raciais. Moffie é uma história de um homem gay branco durante o severo apartheid sul-africano, que vive uma doutrinação constante e o filme parece bem realista nesse sentido. O universo de Nicholas é composto apenas de personagens brancos e praticamente todos racistas, por se passar quase que inteiramente no confinamento militar, e assim, a perspectiva do filme é também totalmente branca. Isso faz da história menos válida? Não. É a história real de um homem gay branco sul-africano nos anos 80. Ela nos deixa confortável? Também não. Ficamos extremamente desconfortáveis do início ao fim do filme, que mostra o quão homofóbico e racista era o ambiente no qual o protagonista foi obrigado a viver. Mas ao mesmo tempo Moffie nos faz pensar o quão ainda mais terrível foi a vida de milhares de pessoas negras (gays ou não) naquela mesma época. É um filme que traz tantas reflexões que nem cabe num mísero post desse blog, e por isso ele vale a pena.

Nota 7!

Moffie ainda não está disponível nas plataformas tradicionais de streaming ou de aluguel do Brasil.


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