CASA DE ANTIGUIDADES – 2020

Outro dos diversos filmes selecionados para o Festival de Cannes de 2020, mas que não teve a chance de ser exibido devido ao seu cancelamento no início da pandemia de covid-19, o brasileiro Casa de Antiguidades foi elogiado entre alguns críticos nacionais e estrangeiros e inclusive cogitado para a vaga de representante do Brasil na categoria de Melhor Filme Internacional. Ele não foi o escolhido, quem ficou com a vaga foi o documentário Babenco, merecidamente, eu diria. Ainda assim, o filme de estreia do diretor e roteirista João Paulo Miranda Maria foi marcante na temporada passada e inclusive comparado a Bacurau por alguns expectadores mais empolgados. Casa de Antiguidades conta a história de Cristovam (vivido pelo maravilhoso Antônio Pitanga), um homem já de idade avançada que trabalha numa fábrica de laticínios num bastante germanizado sul do Brasil. Vindo de Goiás, o homem negro e orgulhoso de suas origens se vê isolado na região em que mora, onde é vítima de todo tipo de preconceito e agressão. Ele vive com seu cachorro isolado numa casa no meio da mata e tenta resistir a cada vez mais sufocante pressão dos moradores que querem ver a sua existência invisibilizada.

Casa de Antiguidades é um filme que captura o momento pelo qual o Brasil passa e, estranhamente, é um dos poucos a abordar racismo e xenofobia de forma tão óbvia e bastante escancarada. Sua proposta é clara: mostrar que existe muito ódio nas relações entre os diferentes grupos de brasileiros, mesmo que o Brasil do filme seja levemente futurista em alguns aspectos. Ele usa inclusive a bandeira do movimento separatista do sul do Brasil, o infame “O Sul é Meu País”, levemente adaptada para incluir o estado de São Paulo. Ou seja, de muitas formas, esse Brasil fictício é assustadoramente parecido com o nosso Brasil de 2021, e filmes assim são cada vez mais importantes para examinar os caminhos que escolhemos como sociedade. Agora, no que diz respeito à narrativa e ao desenvolvimento da história, Casa de Antiguidades deixa muito a desejar. O filme é lento e tem diversas cenas que querem ser poéticas, mas que não acrescentam em nada à história, assim como as cenas com mais significados e que ajudam a trama a avançar são extremamente forçadas e acabam perdendo um pouco da delicadeza e até mesmo da autenticidade que o filme quer tanto construir. Algumas escolhas criativas, geralmente relacionadas às decisões e comentários do protagonista em relação às únicas personagens femininas do filme também são no mínimo estranhas e não fica claro o motivo delas existirem. Uma pena, porque, como disse, é importante que tenhamos cada vez mais filmes dispostos a denunciar os problemas sociopolíticos do Brasil.

Nota 5!

No momento, Casa da Antiguidades, que em inglês levou o título de Memory House, ainda não está disponível nas plataformas oficiais de streaming ou de aluguel do Brasil.


Veja também:

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: