A maioria das pessoas precisa esquecer. Mas algumas precisam lembrar.

Ainda Estou Aqui é um drama histórico dirigido por Walter Salles, com roteiro de Murilo Hauser e Heitor Lorega, baseado no livro autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva. Fernanda Torres, Fernanda Montenegro e Selton Mello lideram o elenco desta história real sobre a família do ex-deputado Rubens Paiva durante um dos períodos mais sombrios da história brasileira.
A narrativa começa no Rio de Janeiro de 1971, durante o endurecimento da ditadura militar. Rubens Paiva vive com a esposa, Eunice, e seus cinco filhos em uma casa próxima à praia, sempre cheia de amigos, música e momentos felizes. Essa rotina é interrompida quando Rubens é levado por agentes do regime para prestar depoimento e nunca mais retorna. Eunice e a filha Eliana também são detidas e interrogadas, enquanto a família permanece sem qualquer informação concreta sobre o paradeiro dele.
Walter Salles, diretor de Central do Brasil e codiretor de Terra Estrangeira, reencontra aqui Fernanda Montenegro e Fernanda Torres. As duas interpretam Eunice Paiva em momentos diferentes da vida: Torres acompanha a personagem durante o desaparecimento do marido e os anos seguintes, enquanto Montenegro assume o papel em sua velhice.
Fernanda Torres está primorosa em um papel que lhe coube muito bem. Ela interpreta Eunice sem exageros, mas profundamente afetada por tudo que acontece com sua família. É uma atuação aparentemente simples, porém carregada de emoção nos olhares, nos silêncios e nos pequenos gestos. A atriz consegue transmitir a coragem e a enorme força de vontade de uma mulher que passou a vida tentando, primeiro, encontrar o marido e, depois, fazer com que o Estado brasileiro reconhecesse oficialmente sua responsabilidade pelo assassinato dele.
A direção de Walter Salles também é extremamente eficiente ao nos transportar para aquela época. A casa da família Paiva praticamente se transforma em uma personagem. No primeiro ato, o lugar representa afeto, liberdade e segurança. É um espaço cheio de festas, conversas e brincadeiras. Depois do desaparecimento de Rubens, porém, essa mesma casa muda completamente. O silêncio e a ausência passam a ocupar cada cômodo, traduzindo visualmente a ruptura provocada pela violência do regime.
Os personagens secundários auxiliam muito na construção desse universo. Selton Mello está excelente como Rubens Paiva e consegue estabelecer rapidamente o vínculo afetivo necessário entre o personagem, sua família e o público. Fernanda Montenegro tem uma participação pequena no último ato, mas profundamente eficaz e poderosa. Sua presença carrega todo o peso da passagem do tempo, da memória e de uma luta que acompanhou Eunice até o final da vida.
Mais do que reconstituir uma tragédia familiar, Ainda Estou Aqui discute a maneira como um país preserva ou tenta apagar sua própria história. O filme mantém viva a memória das pessoas que resistiram à ditadura e ao autoritarismo quando o Brasil mais precisou delas. É uma obra emocionante, corajosa e essencial, que faz justiça à história de Eunice e Rubens Paiva e também ao melhor do cinema brasileiro.
Nota 10.
Ainda Estou Aqui está disponível no Brasil pelo Globoplay e pelo canal Telecine dentro do Amazon Prime Video. 🎥

