
Leviticus é um filme australiano de terror escrito e dirigido por Adrian Chiarella, em sua estreia na direção de longas-metragens. Protagonizado por Joe Bird e Stacy Clausen, o filme também conta com Mia Wasikowska, Ewen Leslie, Nicholas Hope e Jeremy Blewitt no elenco. A história se passa em uma pequena comunidade cristã no interior do estado de Vitória, na Austrália, onde a homossexualidade é tratada como algo que precisa ser reprimido ou eliminado.
Naim, interpretado por Joe Bird, é um adolescente que se muda com a mãe para essa cidade industrial e profundamente religiosa. Aos poucos, ele se aproxima de Ryan, vivido por Stacy Clausen, e os dois começam a explorar a atração existente entre eles. Quando a sexualidade dos rapazes é descoberta, membros da comunidade os submetem a uma violenta prática de conversão religiosa. Depois do ritual, uma entidade passa a persegui-los, assumindo a forma da pessoa por quem cada vítima sente maior desejo e afeto.
A premissa é bastante criativa e inevitavelmente lembra It Follows, lançado no Brasil como Corrente do Mal. Assim como no filme de David Robert Mitchell, existe aqui uma figura sobrenatural que apenas algumas pessoas conseguem enxergar e que pode assumir diferentes aparências. Em Leviticus, porém, a criatura está diretamente associada ao desejo homossexual e ao trauma provocado pelas chamadas terapias de conversão.
O filme constrói uma atmosfera interessante, e o lugar onde a história acontece é fundamental para isso. A região industrial do interior de Vitória é apresentada por meio de áreas planas, construções decadentes e espaços que parecem quase completamente estéreis. Existe uma melancolia constante nessas paisagens, como se aqueles jovens estivessem presos em uma cidade incapaz de avançar junto com o restante do mundo.
Esse ambiente combina muito bem com a história de pessoas que procuram se libertar, mas são impedidas pela família, pela religião e pela comunidade ao redor. A entidade sobrenatural materializa o medo e a culpa impostos sobre esses adolescentes, transformando aquilo que deveria representar desejo, afeto e descoberta em uma ameaça violenta.
Apesar da criatividade da premissa e da riqueza dessa atmosfera, o filme apresenta um problema importante na evolução de Naim. Ainda no primeiro ato, tomado pelo ciúme, o protagonista revela ao pastor que Ryan e outro rapaz estão se envolvendo. Essa atitude expõe os dois jovens às suas famílias profundamente religiosas e desencadeia boa parte dos acontecimentos terríveis da narrativa.
O problema não está necessariamente em termos um protagonista que comete um erro grave, mas na dificuldade do roteiro em mostrar uma transformação convincente depois disso. Em diferentes momentos, Naim continua agindo de forma covarde e egoísta. Mesmo quando as consequências das suas escolhas se tornam evidentes, são raras as cenas que demonstram uma evolução significativa do personagem.
Essa construção dificulta nossa identificação com ele e até diminui a vontade de acompanhá-lo em busca de um final feliz. A impressão é de que o filme espera que o espectador compreenda e perdoe Naim antes que ele tenha realmente feito o necessário para merecer esse perdão.
Ainda assim, Leviticus merece ser assistido por sua criatividade e pela maneira ousada como transforma repressão religiosa, homofobia e terapia de conversão em elementos de terror sobrenatural. A ambientação australiana, as atuações dos protagonistas e a ideia de uma criatura que assume a forma do próprio desejo garantem ao filme uma identidade forte, mesmo que o desenvolvimento do personagem principal não alcance todo o potencial da proposta.
Nota 6.
Leviticus ainda não possui opções oficiais de streaming, aluguel ou compra digital no Brasil.

